"Arte sem educação ou /e o Brasil visto de fora". 1967, págs. 133-136.
Mas, nesse ponto esbarramos em problema que é o mais gritante do Brasil: Educação. É possível haver arte (que não primitiva), num país onde não existe educação em seu sentido elementar de instrução? Se a primária é deficiente, pois o índice de analfabetos supera os 50 por cento da população, a secundaria é para privilegiados e a superior tende a acolher uma minoria cada vez mais exclusiva. E mesmo sem observar como é difícil a um estudante levar a cabo uma pesquisa, em qualquer campo de atividade, já chega a ser assustadora a afirmação de que na Universidade de S. Paulo não há ainda um curso de Artes de nível universitário, porém apenas uma cadeira de História da Arte. Somos todos autodidatas no Brasil em arte, sejamos nós artistas, críticos, pesquisadores ou historiadores de Arte. Aos trancos. E até quando o governo federal, estadual e municipal continuarão prestigiando com milhões uma Bienal sem preocupar-se —este é o ponto— em estabelecer, por meio das Universidades, cursos de Artes ( com professores do exterior, contratados, se necessário, pois sabe-se que no Brasil, o dinheiro existe) a fim de fundamentar o acontecimento bienal numa base cultural real?
Porque artigos como “Exposição de Arte se, Raízes: Bienal pertua o
provincianismo de artistas latino-americanos ignorando a Historia” não podem
ser menosprezados. Mais. Provam, apesar de erros de enfoque, que está à flor da
pele a problemática artística brasileira. E nesse ponto o autor teve rara
acuidade em assinalar uma verdade —a educação artística— que dificilmente os
jovens artistas desejam enfrentar, se bem que não caiba a eles sua solução.
Além de mencionar o imitativo, sempre presente na arte brasileira, Kramer
ressalta ainda o fato de o artista latino-americano, em particular o
brasileiro, julgar, aparentemente, que a arte “pop” da fins da década de 50 nos
Estados Unidos surgiu do nada, de repente, quando ela está, ao contrário,
integrada na evolução da historia da arte. Daí porque o artista brasileiro,
como tantas vezes já foi dito, que vive numa realidade, e nem participa do
conjunto circunstancial sócio-político-econômico- dos Estados Unidos, não pode
criar com autenticidade uma arte que é diretamente conseqüência da civilização
norteamericana, de consumo, e com todas as peculiaridades que lhe estão
implícitas. [pág. 135]
